Muitos anos atrás, numa data que através de um calendário estabelecido por um homem chamado Ugo Bouncampagno, seria conhecida como 2004, um homem, que por conveniência chamaremos de Senhor Burton, começou a escrever. O Senhor Burton vivia calmamente dentro de uma rocha - não uma rocha oca, mas uma rocha de interior bem concreto – quando num fatídico dia seu computador explodiu. Deparado com o tremendo tédio que sempre o assombrara e com as poucas possibilidades de ação nas limitadas fronteiras da rocha em que vivia, ele se viu tomado por reminiscências de esporádicas ocasiões em que tomado de inspiração escrevera histórias as quais nunca acabara – como O Relato da Vida da Terrível Criatura, que vive na caverna sombria, chamada Loid, escrito no ano anterior a tais eventos -, o que lhe deu a fantástica idéia de escrever algo inteiramente novo em sua vida: uma história com um fim.
Desta maneira, o Senhor Burton decidiu que escreveria uma história desenvolvida a partir do próximo sonho que tivesse, já que seu único veículo regular de escrita eram suas extensivas anotações de seus sonhos. E, assim, nasceu o épico Os Comuns, uma crítica social em forma de aventura de ficção científica com traços eróticos, que foi escrita no período de 3 dias ininterruptos, no total de 110 páginas em um caderno, o que seria três quartos do livro planejado. Três quartos do livro, pois no quarto dia, o fogo que tomara seu computador foi apagado e este voltou a sua funcionabilidade. O Senhor Burton, porém, não foi enganado pela volta das distrações oferecidas por seu computador, pelo contrário, decidiu usá-lo para seus objetivos, chegando a conclusão que o melhor passo a seguir seria de em vez de acabar o livro no caderno, digitalizá-lo e depois terminá-lo lá mesmo, o que lhe ofereceria melhor formas de distribuição. E aí foi que os problemas começaram. Pois o Senhor Burton teve um sério problema entendendo a sua própria letra, e mesmo assim quando conseguia, depois de muito esforço, se via deparado com um relato escrito quase em transe, em que a escrita facilmente se embaralhava entre a primeira e a terceira pessoa. Mas esse não foi o pior problema, já que o Senhor Burton sempre teve a capacidade de piorar muito mais a situação. Transcrevendo o primeiro capítulo de seu livro para o computador, ele se viu tomado de um tremendo desprazer quanto as suas descrições do mundo futurista ao qual criara. Sua crítica social estava muito bem ali apresentada, mas suas palavras não representavam com a mesma perfeição o mundo que criara em sua cabeça. Elas deveriam descrever uma beleza quase transcendental, imagens que transbordassem de sabor, algo extraordinário. E, assim, ele passou 3 meses reescrevendo as mesmas 9 páginas do primeiro capítulo de seu livro.
No fim, o Senhor Burton parou, sem saber mais o que fazer, pois não sentida mais nada pelas suas palavras. Ter lido a mesma coisa mais de 300 vezes naquele período havia o deixado num estado de anestesia completa de seu próprio material. Poderia ser bom, poderia ser mau, ele não tinha mais a capacidade de distinguir. Além disso, também tinha o problema de não ter mais ninguém para ler o seu trabalho, pois habitava sozinho o interior concreto daquela rocha. A internet de seu computador poderia ser uma opção, mas naquele tempo ele estava imergido numa severa paranóia, e acreditava que no primeiro momento que colocasse seu material online, alguém com mais determinação e melhores contatos iria roubar-lhe as idéias, tornando-se no dia seguinte um bilionário, e deixando-o para apodrecer dentro de sua rocha. Naquele tempo, o Senhor Burton não tinha um grande entendimento da humanidade. E foi assim que a história da primeira história que deveria ter um fim acabou, pois o Senhor Burton não se atreveu a se sujeitar ao mesmo que teve com seu primeiro capítulo, seguindo para o segundo capítulo de 22 páginas.
Obs.: Alguns anos depois, alguém finalmente chegou a ler o primeiro capítulo de seu livro, os comentários foram algo ao redor de “eu li, eu gostei, mas aí eu comecei a dormir, aí eles começaram a fazer sexo e eu acordei, mas aí eu dormi de novo, mas acordei de novo quando eles voltaram a fazer sexo”.
A Seguir: Zumbis, assassinato, super-heróis e elogios da crítica! O Senhor Burton escreve histórias em quadrinhos!
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