terça-feira, 7 de outubro de 2008

Um Ano de Anti-Ontem

Outubro, 2008


Estou com ela e subimos uma rua em ladeira. Grades a nossa frente, ela passa com facilidade entre elas, eu não consigo. Tenho de descobrir uma outra forma de passar. Ela segue subindo. Acho num canto um buraco com uma barra de metal meio solta. Arranco-a e me espremo pela passagem. Ela já está no meio do caminho, abaixo de um túnel que divide a ladeira. Corro para alcançá-la, mas não consigo. O chão é uma almofada. A cada passo, o meu pé afunda e parece descer para trás. Para avançar, faço um esforço tremendo. Caminho num mar sólido, com ondas a se formar a cada novo esforço. Ela continua a subir. Chego finalmente a altura do túnel. Um homem que em muito se parece com um gafanhoto, ou um gafanhoto que muito se parece com um homem, está deitado num sofá a me observar. Ignoro-o. Continuo a andar. Olho para cima, ela não está mais lá. Vejo também que o fim da ladeira acaba em outra grade. Atrás de mim o homem, ou gafanhoto, me chama por meu nome, o qual eu não sei. Viro-me. Ele começa a falar, enquanto desliza seus dedos ao redor de uma cartola, a qual segura com suas duas mãos, ou patas.

- Está aqui?
- Não, estou lá.
- Lá em cima, ou lá em baixo?
- Lá.
- Lá ontem?
- Lá.
- Já viu algum quadro pintado amanhã ontem?
- Não, mas acho que já ouvi sobre um em algum lugar. Acho que se chamava Margarida e…, não lembro do resto. 
- Sim, exatamente este ao qual estava pensando. Sabe eu costuma a pintar muitos quadros com muitos ontens, mas descobri que não era possível desenhar um bom amanhã ontem. O amanhã sempre acabava por se desvalorizar na figura, enquanto o ontem brilhava mesmo estando vazio.
- Mas é o ontem que faz o amanhã!
- Não, é o ontem que mata o amanhã. Pois nunca houve ontem, só hoje. Só hoje há ontem. Veja este túnel. Coberto em sombras, enquanto um céu azul cobre os dois lados da ladeira que em muito se parecem.
- Mas um é em baixo e o outro é em cima.
- E há árvores ao redor. Há única diferença que noto entre um e outro, é que ao chegar lá em cima estará cansado depois de todo o esforço que fez para subir.
- Sim, mas estarei em cima.
- Só ontem.
- Do que mais poderia ser?
- Anti-ontem. O melhor quadro de amanhã é o feito de anti-ontens. Imagine um hoje onde não há ontem.
- É um quadro bem leve.
- E sem cansaço da subida. Pois amanhã só deve ser amanhã, e hoje não deve ser ontem. Imagine um ano de anti-ontem.

Neste momento, ela chama o meu nome, o qual eu não sei. Olho para cima. Ela está lá no topo da ladeira. Grita que encontrou uma escada descendo para dentro. Depois some para um canto. Decido continuar subindo pela rua de almofada.

1 comentários não é o suficiente!:

Walmir disse...

conto bacana, mano.
bem escrito, considerações sobre o mistério da vida. É assim. Vou lendo, às vezes comento. Tem vezes que não sou eu quem comenta, sãominhas estórias que me contam.
Paz e bom humor, sempre