Fevereiro, 2008

Nós íamos para o oeste, encontrar ouro e ficar ricos, como papai dizia sempre que pensava nisso: “Thomas, breve nós vamos achar o ouro e finalmente poderei te comprar um chapéu!” A vida estava difícil na cidade. Mas os jornais diziam que fortuna podia ser feita na Califórnia. Uma terra de oportunidades finalmente tomada dos malignos mexicanos. No nosso bairro, papai só conseguia trabalhar de vendedor de sapatos e mamãe de lavadeira. Éramos ao todo quatro: papai, mamãe, minha irmã pequena Patrícia, e eu. Vovó morrera de disenteria há poucas semanas. Ela agora estava enterrada no rio, ou boiando. Tomaríamos a primeira caravana que saísse atravessando o país para a terra prometida. Meus únicos ressentimentos quanto a ir, eram deixar meus amigos Perry Manson e Billy Volcano, nós tínhamos conseguido muito dinheiro engraxando sapatos e batendo na criança gorda do fim da rua, e deixar a minha amada Maria-Susanna. Ela era a garota de doze anos mais bonita do bairro, olhos azuis, cabelo loiro encaracolado, sempre me chamando de Tom dos Sapatos Pretos. Ela realmente me amava. Para mim, ela levantava a saia por apenas um centavo, todos os outros garotos tinham que pagar três, e os homens mais velhos tinham que pagar cinco. Nós éramos felizes em nossos pequenos momentos. Papai conseguiu fazer um ótimo negócio trocando a casa por uma carroça velha e dois cavalos. A casa de três andares, quatro quartos, sala, uma grande cozinha, dois banheiros, com encanamento, que vovó tinhas nos deixado e não era grande coisa. Logo, nos juntamos a um grupo de trinta outras carroças. Tinha me decidido que até chegarmos a nosso destino me tornaria um verdadeiro cowboy. Diferente dos outros garotos, e também porque conseguia economizar com o meu desconto com Maria-Susanna, tinha sempre guardado alguns centavos, e dediquei-os a pagar o garoto gordo do fim da rua para me ensinar a ler. Ele me ensinava muitas coisas, quando não estávamos batendo nele com um pedaço de pau. Minha decisão de aprender a ler pode parecer estranha, uma perda de tempo, mas eu queria muito acompanhar a revista de Aventuras no Oeste Selvagem do destemido David Cohen. Ele era um grande cowboy, que desde seu bar mitzvah, combatia os mercenários mexicanos e desbrandava as terras das tribos selvagens dos japoneses. Toda a noite, antes de dormir, eu me imaginava no meio do deserto, com meu cavalo, combatendo aqueles samurais sem deus.
Começando minha vida rumo ao oeste com minha família, decidi que como um verdadeiro cowboy devia estabelecer uma relação de amizade com nossos dois cavalos, assim, batizei-os de Lola e Hans Fritz. Eles logo se adaptaram a esses nomes, apesar de minha pequena irmã sempre reclamar: “Eles são meninos, ambos meninos, olhe lá entre as pernas, meninos! Não chame o outro de Lola, chame-o de Martin. Eu prefiro, e é um nome de menino!”. Claro, que a ignorei completamente. Na nossa caravana, eu também faria vários novos amigos, como os garotos Billy Zane e Scott Bakula. Nós tínhamos alguns problemas em nossas brincadeiras, eu gostava de cowboys, eles de piratas, e eu não sabia o que eram piratas, só sabia que era algo relacionado a algum grande lugar com muita água, que eu nunca tinha ouvido falar. Lá eu também conheci meu novo amor: Ruiva. Porém, ela era diferente das outras garotas e me odiava. Eu a oferecia um centavo, eu a oferecia três centavos, eu chegava até ao extremo de lhe oferecer cinco centavos, e o que ela fazia: me dava um tapa. Insano, não fazia sentido. Minha mãe dizia que eu devia evitá-la. Na verdade, muitas pessoas da caravana, apesar de não terem nenhum problema com ela em específico, a evitavam por não gostarem de seu pai. Ele só era conhecido como o Norueguês, um estranho homem, muito branco, que mal falava a nossa língua e sempre se encontrava de cara amarrada, evitando as pessoas e mantendo a sua carroça no fim da caravana, que era estranhamente coberta por um pano laranja. Rumores diziam que ele era um budista e que planejava nos matar. Ruiva sabia desses rumores, e deixava implícito com seu comportamento, que ela nos considerava um bando de retardados. Mas eu sabia melhor, nenhuma garota normal recusaria um centavo para olhar debaixo da saia dela. Ela que era estranha. Mesmo assim, algo nela me fascinava, e não só o reluzente cabelo vermelho, havia algo mais, suas palavras, seu jeito. Quando nós a chamávamos para brincar, ela se recusava a ser a mocinha em apuros, e sempre queria ser a capitã pirata. Outra coisa que me impressionava nela é que ela era a primeira pessoa que eu conhecia que sabia quem era o destemido cowboy David Cohen, apesar dela o considerar um assassino das “pobres tribos japonesas” como ela gostava de dizer. Ela sabia ler, o que eu achava mais estranho que a minha própria prática, já que ela era uma garota. Patrícia a odiava, ela constantemente dizia: “Eu não gosto dela! Eu não gosto dela nem um pouco!”; aí ela dava um pequeno pulo, cruzava os braços, gruía e olhava para o lado em desgraça.
Meu aprendizado de cowboy ia bem, já estava conseguindo que Lola, o mais esperto dos dois cavalos, contasse até dois com suas patas. Patrícia me ajudava nisso, apesar de prejudicar um pouco o aprendizado, cismando em chamar ele de Martin. Ela era quem ficava em baixo do cavalo, levantando sua pata, enquanto eu olhava nos olhos dele e lhe dizia dois. Patrícia era bem forte e conseguia bons resultados, apesar de usar isso contra nós: eu, Billy e Scott; quando a usávamos de mocinha em apuros nas nossas brincadeiras. Claro, que quando brincávamos com ela, não chamávamos Ruiva. Na única vez que o fizemos, Patrícia ficou tacando maças nela, e em resposta, Ruiva, dependurou ela numa árvore. Pelo menos não era como se alguma das duas tivesse muita opção, Ruiva, só era aceita pelo nosso grupo, e por um outro grupo de crianças que passava o tempo empilhando livros, e Patrícia, que não gostava de brincar com crianças da sua idade, era ignorada por ser muito pequena e gostar de tacar violentamente maças nas outras garotas.
Nos primeiros meses da caravana tudo seguiu em calma, até que um dia o líder da campanha, Yurik o Gordo, reuniu todos e disse: “Oi pessoal! Bom ver vocês aqui hoje! E aí você, amigo Stalin, se recuperando da sífilis? E você, Maria Ostrogoda, como vão as crianças? O pequeno Billy Zane já se recuperou da perda da perna? Então, pessoal, eu juntei vocês aqui hoje, porque depois de muita consideração, eu cheguei a conclusão que nós, provavelmente, estamos perdidos, e além disso existem grandes chances da comida acabar em duas semanas, e nós todos morrermos!”. Pelo que parece, este discurso causou um certo desconforto entre as pessoas. Depois disso, nos dois meses que se seguiram, muitas coisas mudariam o nosso rumo. A caravana se dividiria em duas, seguindo direções opostas. Ruiva e Scott Bakula iriam embora com o outro grupo. Nossa caravana eventualmente seria atacada pelos malditos samurais, e Billy Zane e sua família acabariam deixados para morrer entre eles. A pequena Patrícia seria picada por uma cobra, atacada por lobos e devorada por ursos. No final, só sobrariam eu e minha família no meio de uma floresta coberta de neve, esperando a morte.
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