sexta-feira, 23 de maio de 2008

Cantem!!!

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Um Homem Chamado Jack: Um Faroeste Real III

Capítulo III – Em que comemos e mamãe fica feliz


Jack pouco falou além de seu nome, nós lhe contamos a nossa história até ali e pedimos-lhe ajuda. Ele nos disse que ficaria conosco aquela noite, e pela manhã partiríamos para fora da floresta. Eu o observei durante à noite, ele dormia segurando a sua arma. Na manhã seguinte, partimos seguindo-o. Durante à tarde, ele saiu em busca de comida, quando lhe oferecemos ajuda, ele recusou. Meus pais temeram que ele fosse nos abandonar. Mas não o fez. Em apenas duas horas, voltou com um saco com quatro esquilos empalados. O que era incrível, nós nunca encontramos esquilos, a única carne de verdade que conseguimos no nosso tempo tentando sobreviver foram os dois ursos que papai matou. Quando lhe perguntei como encontrara esquilos mesmo naquela floresta coberta de neve, ele só me respondeu: “Nem todo o esquilo pode voar para alcançar a noz.”. Comemos os esquilos e continuamos na viagem.

No caminho Jack não gostava de conversar, parecia precisar estar sempre atento aos seus arredores. Só quando parávamos para descansar é que aceitava uma conversa, apesar de curta. Meu pai lhe falando nada conseguiu. Porém, isso mudou quando uma hora lhe perguntei se conhecia o destemido David Cohen, ele me respondeu com surpresa: “O caçula dos irmãos Cohen?”. Não entendi e lhe perguntei: “Como assim, só há um Cohen, nunca ouvi de um irmão. Ele cavalga sozinho pelo oeste selvagem.” Ele simplesmente riu e disse: “Aquele pequeno bastardo conseguiu, não? Garoto, você está me dizendo que você não conhece o Sexteto Cohen? Nunca ouviu falar de Zohar e Oz?”. “Não.”, respondi. E ele continuou: “Aquele pequeno bastardo em nada se compara aos seus irmãos. Eu não tenho notícias deles há décadas, mas não posso acreditar que aquele garoto possa ter se sobrepujado sobre Zohar e Oz, até os outros três podiam manejar uma arma melhor que ele.”. Vendo meu herói ser tão inferiorizado, logo contestei: “Não. David Cohen é um grande cowboy, o melhor! Uma vez ele sozinho salvou uma cidade inteira do ataque dos japoneses.”. E ele continuou: “Garoto, aquele pequeno bastardo não era nada quando eu o conheci. Devia ter o dobro de sua idade. Ainda me lembro quando Zohar se defrontou contra Shapiro, o miserável. Com uma bala, ele estava no chão. Aqueles eram os bons tempos, hoje em dia, vocês jovens gastam pelo menos umas quatro balas para matar alguém, um desperdício.”.

Em dois dias nos encontramos finalmente fora da floresta, em um campo ensolarado. Jack disse que seguiria seu caminho a parti dali. Meus pais perguntaram-lhe se sabia o caminho para a cidade mais próxima. Ele disse: “Sim, atravessando a floresta para a direção oposta a que viemos, em duas semanas vocês estão fora, em uma, encontram a cidade mais próxima.”. Nós não tínhamos a mínima intenção de voltar àquela floresta. Mesmo assim queríamos voltar para a civilização, ao que Jack respondeu: “Pela floresta é o único caminho que conheço para chegar a sua civilização. Deste lado, vocês vão encontrar montanhas, que vocês não vão poder atravessar, outras florestas, algumas mais traiçoeiras que a que acabamos de atravessar, que eu não tenho a mínima idéia para onde vão, e por fim, um deserto, em que vocês nunca teriam a capacidade de sobreviver. Meu conselho é que fiquem aqui, há comida ao redor, poucos predadores, muitas presas, e o clima é constante.”. Nós não queríamos ficar ali, queríamos rumar para o ouro da Califórnia. Meu pai não podia aceitar o que ele estava dizendo: “E você para onde vai? Se vai para alguma cidade, você tem de nos ajudar.”. Em resposta, ele disse: “Eu posso eventualmente acabar em uma cidade, mas eu não acredito que vocês sobreviveriam ao caminho, meu destino é o deserto. Se vocês quiserem viver, o melhor é ficar aqui, eu não tomarei responsabilidade.”. Meu pai respondeu: “Não pode ser tão ruim quando ao que passamos, nós tomamos o risco!”. Ao que Jack só respondeu: “Então, só saibam, para me seguir, vocês tem de me obedecer.”; o que concordamos.

Alguns dias atravessando o campo, mais alguns atravessando uma nova floresta, nos deparamos finalmente com o deserto. Areia e mais areia, pedras e mais pedras, nenhuma árvore a vista. Jack nos ensinava como encontrar lagartos para comer. Nesses dias, ele também se abriu mais conosco. Apesar das condições em que nos encontramos, comendo lagartos, bebendo água de cactos, morrendo de calor durante o dia, e de frio à noite, dormindo sobre pedras, nós estávamos bem. Jack nos dava um sentido que estávamos chegando a algum lugar, mesmo com nada o aparentando. Até mamãe, que há pouco tempo estava ainda abalada pela morte de Patrícia, já demonstrava ares de calma, especialmente perto de Jack. Sua bravura de cowboy, devia a estar afetando do mesmo jeito que a mim, que mesmo depois da traição de Lola e Hanz, já voltava a imaginar minhas aventuras. Jack era um verdadeiro cowboy, apesar de não tê-lo visto fazer nenhuma das destemidas bravuras de David Cohen, isso não poderia ser negado.

Um dia vimos à distância um objeto muito estranho, algum tipo de construção gigantesca de madeira. Ao chegarmos perto, papai disse que era um navio e que parecia ter sido partido ao meio por uma grande pedra. Jack, nada nos disse, e foi o primeiro a entrar nele. Seguimos-o entrando pela abertura do meio. Era como um grande depósito, cheio de coisas, num canto havia um esqueleto deitado. Jack havia sumido por um corredor. Papai e eu seguíamos olhando pelas caixas que se espalhavam ao nosso redor. Algumas se desfaziam ao toque. Num momento escutei um estranho som atrás de mim, algo quebrando, me virei e acompanhei-o até um canto. De repente o chão partiu sob mim e caí. Cordas me rodeavam, tentei me segurar nelas, mas de pouco adiantaram, não parecia estar mais no navio e escuridão me rodeava. Encontrei-me enfim num amontoado de areia e madeira, as cordas impediram que se fizesse um grande impacto. Ao me levantar, olhei para cima, papai já estava na borda do buraco, gritando por Jack. Ao meu redor pouco se via, porém escutava guinchos de animais e algo batendo. Logo, Jack apareceu e gritou que buscaria uma corda. Meus olhos começavam a se acostumar com a escuridão e de repente vi um grande lagarto à distância, não me assustei por logo notar ser um entalhe numa grande parede. Porém, os sons ao meu redor começaram a aumentar e de repente, um grande morcego apareceu e me acertou na cara, desmaiei.

Estava sentado na calçada da rua de casa, Maria-Susanna estava ao meu lado, tomávamos sorvete. Conversávamos, mas nada fazia sentido e parecia não realmente escutá-la. Uma coruja engraxava meus sapatos. Num momento uma grande carroça passou pela nossa frente, e quando foi-se, vi do outro lado da rua, sentada em oposição a mim, Ruiva. Ela me olhava. Queria ir até ela, mas por alguma razão acreditava que não deveria deixar Maria-Susanna e a coruja me olhava em desaprovação. Gritei para mim mesmo que não, não aceitaria aquilo, e decidi ir até ela, levantei-me, mas quando estava atravessando a rua, tudo se desfez. Abri meus olhos e vi mamãe ao meu lado. Estava de volta no deserto. O navio não estava mais lá.

Continuamos nosso caminho. Num dia algo aconteceu que mudaria tudo, papai e eu estávamos longe procurando lagartos entre algumas pedras, mamãe cortava um cactos para água, enquanto Jack se encontrava sentado numa pedra observando um estranho pedaço de madeira, que parecia ter trazido do navio. Mamãe parecia tentar conversar com ele, quando a cortar parte do cactos a água dele esguichou sobre a sua blusa. Ela mostrou para Jack e riu. Ele lhe deu um sorriso. Depois levantou, olhou primeiro para nossa direção, talvez procurando papai que estava agachado enfiando a mão entre as pedras, sem o ver, continuou a conversar com mamãe. Pareciam estar se divertindo, deviam estar contando piadas. Papai após finalmente pegar o lagarto que estava atrás, ao vir me mostrar ele, notou os dois e começou a observá-los. Num momento, quando mamãe começou a tocar o colete de Jack, ele ficou com raiva e foi até eles. Disse para eu ficar ali e continuar a caça. Chegando lá, papai se colocou entre eles, e começaram a discutir. Jack sorria para ele, apesar de sério, enquanto mamãe o olhava com raiva. Num momento, depois de muita discussão, Jack simplesmente pegou as suas coisas e foi embora em seu cavalo. Neste momento, decidi voltar e perguntei o que estava acontecendo, papai só me respondeu que a partir de agora seguiríamos sozinhos no deserto, disse que não devia me preocupar, já sabíamos o suficiente. Porém, em uma semana, morrendo de fome, nos encontraríamos mais perdidos do que nunca.

Continua!!!

domingo, 11 de maio de 2008

Dancem!

domingo, 4 de maio de 2008

O Homem de Ferro

(Aviso para quem ainda não viu, eu detalho partes da trama do filme.)

Tony Stark não tem um vizinho tocando funk em uma de suas janelas, outro tocando forró na outra, e o esgoto passando por baixo de seu chão. Não! Nem passa o tempo vendo filmes, assistindo tevê, indo para lugares insólitos fazer coisas para outros, ou escutando outros lhe falando o completo inútil. Não! Ele acorda e faz armas. Ele acorda e expande a sua mente ao horizonte. Tony Stark é dono de seu mundo! Quando não está construindo a realidade ao seu redor, ele sai e a divide com o resto, aproveitando o meio tempo para saborear jovens jornalistas com um bom vinho.

Mas qual é o ponto de construir mísseis, se você não tem a chance de atirá-los? Qual é o ponto de comer pizza, escutando o último cd de Pete Yorn, enquanto escreve um comentário sobre o filme Homem de Ferro? Qual é o ponto? Para Tony Stark e suas armas é uma questão de morte e renascimento. É tirar alegres fotos com jovens soldados, que nunca tiveram a chance de questionar para onde estavam indo, só se perguntar se iriam ou não poder comprar o DVD do filme, no caso de ainda terem visão ao voltarem para casa; e então ser subitamente, no meio de um mar de balas, suas próprias filhas, retirado deste mundo, e arrastado pela poeira do deserto, para ser reinserido no útero. É necessário um grupo genérico de terroristas, de olhos frios, homens maus, não tanto quanto velhas senhoras de igreja, para quebrar seu mundo alegre de vinho e o retornar ao buraco escuro da onde veio para repensar a sua vida. E, assim, com um cientista fracassado como consciência e bando de funcionários revoltados do McDonalds lhe apontando suas próprias criações, ele finalmente vê como tudo o que fez até então afetou as massas impotentes que nunca souberam como ejacular para o horizonte.

Tony Stark, então, com um eletrodo em seu peito, a impedir que os estilhaços de sua vida passada acabem com seu coração, tem de construir um novo corpo, para finalmente sair do útero e atirar suas próprias armas. Finalmente se tornar o homem que não só passa o seu tempo inventando novas armas, e degustando jovens jornalistas, mas que também toma responsabilidade por suas criações e sai por aí batendo nos outros que não as usam direito. Deixar de ser só um potencial a oferecer potência a sociedade, e passar a assumir esta potência para si, tomando a responsabilidade por todas as conseqüências do que faz. Claro que isso não é suficiente, para completar sua transição para um novo homem, um homem de ferro, ele também tem de matar o seu pai, aquele que distribui sua potência para qualquer um, e não toma nenhuma responsabilidade, a força que o condicionou a sua vida passada. Isso para poder finalmente assumir sua própria paternidade como um herói. Um homem dono de seu mundo e do mundo ao seu redor, que passa seus dias a criar poder, a mastigar jovens jornalistas, e atirar, ejaculando não só no horizonte, mas também na cara de quem o possa contrariar.

O Homem de Ferro é um bom filme, e já chega com o selo de qualidade de Robert Downey Jr., que além de um bom ator, sabe escolher os papeis que faz. A direção de Jon Favreau, que também faz uma ponta no filme como um dos executivos de Stark, é capaz. E o roteiro é bem equilibrado entre ação, reflexão e emoção, respeitando a história original de Stan Lee, Jack Kirby, Larry Lieber e Don Heck, que já continha toda a trama do filme. Resta ao espectador após obter seu entretenimento, chegar em casa e morrer de vergonha por não ser capaz de construir em seu porão seu próprio propulsor eletromagnético, com capacidade de o levitar no ar.

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Um Homem Chamado Jack: Um Faroeste Real II

Fevereiro, 2008
Capítulo II – Em que lutam para sobreviver e vovó faz visita


A vida estava difícil, nós estávamos perdidos, com fome, e com frio. Mamãe ainda estava perturbada pela morte de Patrícia, papai havia perdido três dedos do pé esquerdo, congelados, após ter comido suas botas, e Lola e Hans tinham poucas forças para avançar nos carregando. Uma floresta de altas e grossas árvores nos cercavam para todos os lados. Nossa rotina diária era procurar comida pela manhã e tentar encontrar nosso caminho pela tarde. Nossa última refeição decente fora um bom em suculento lagarto, sobrevivíamos de pequenas frutas congeladas. Nas nossas explorações na floresta, papai me contava de sua infância na Áustria: “Thomas, você sabe de algo, na sua idade, eu já tinha um chapéu. Era um bom chapéu! Não um chapéu de gente rica, mas um bom chapéu do mesmo jeito. O trabalho nas minas de carvão me possibilitava ter um bom chapéu! E eu era bom nele.”; e ele continuava: “E você sabe, eu vim para este país com o meu chapéu. As pessoas no barco sempre diziam o quanto bom era o meu chapéu! E você sabe o que aconteceu com o meu chapéu? A sua avó aconteceu! Ela disse que eu só poderia casar com a sua mãe, se eu me livrasse do meu chapéu. Você sabe o que ela se atreveu a dizer: que o meu chapéu era velho e cheirava mau. E eu disse não. Não me importava, nada me faria me separar de meu chapéu. Não me importava que a sua mãe se oferecia para mim tão facilmente, eu podia conseguir isso em qualquer lugar, mas eu não conseguiria com tanta facilidade um bom chapéu. Mas aí, a sua avó me ofereceu um emprego na loja de sapatos do velho Silvestre. Você se lembra dele, não? Aquele velho bastardo! Ela me disse que logo ele iria morrer e facilmente me deixaria o negócio. E eu acreditei. Hum… aquele velho deve estar lá agora na loja, com seus cento e quatorze anos, contando o seu dinheiro. E eu desisti de meu chapéu!”; e ele continuava: “Mas você sabe de uma coisa, adivinha quem não está no rio! Não conte a sua mãe, mas depois de tudo que a sua avó fez, eu nem morto ia carregar ela até o rio. Se lembra daquele bife que nós comemos logo depois que ela morreu? Então, eu troquei ela com o açougueiro chinês do fim da rua. Finalmente, ela serviu para alguma coisa!”; e ele continuava: “Meu deus, era um bom chapéu!”.

A cada dia que passava, a comida ficava mais difícil de encontrar, e Lola e Hanz mais fracos para avançar. Lola sempre estava a contar até dois, esperando comida em retorno. Hanz, por sua vez, era mais triste, e só olhava para o vazio com seus grandes olhos. Um dia nós só tivemos como refeição uma velha espiga de milho, uma que mamãe guardava consigo, vestia, enfeitava, e chamava de Patrícia. Uma manhã, papai me colocou a procura de comida sozinho, ele disse que não avançaríamos aquele dia, e que eu só deveria voltar à tarde com o máximo que conseguisse encontrar. Senti-me como um destemido cowboy a procura de suprimentos para a pobre caravana que estava protegendo. Pelo caminho, catando as frutas congeladas e os insetos que encontrava debaixo das pedras, minha cabeça pairava pelo meu passado, por lembranças da vida fácil engraxando sapatos dezoito horas por dia na grande cidade, por lembranças de Maria-Susanna, quando ela me agarrava pela mão e me levava para os corredores escuros da igreja, me pedindo um centavo e levantando sua saía, por lembranças das brincadeiras de piratas na caravana, e como os disfarces de Scott e Billy, me lembravam das amigas enfeitadas de minha avó que três vezes por semana tomavam chá por oito horas lá em casa, e mais que tudo, me lembrava de como Ruiva me fascinava. Falando a verdade, a maioria do tempo eu só pensava em Ruiva, eu falava com ela constantemente em minha cabeça, contava-lhe tudo que acontecia comigo, e como me tornaria em breve um destemido cowboy. Por alguma razão nem mesmo na minha cabeça ela parecia gostar de mim, continuava sempre me chamando de nomes estranhos e me dando tapas. Estando sozinho no meio da floresta, mantinha minhas conversas e observações em voz alta, pensando que não iria despertar a atenção de alguém, quando à minha frente apareceu um velho japonês.

Quando ele apareceu à minha frente, me assustei e caí para trás. Mas não iria fugir, um verdadeiro cowboy não teria medo de um japonês, e ainda mais era só um e velho, quando abandonamos Billy Zane e sua família à própria sorte, era uma tribo inteira. Rapidamente, me posicionei para uma luta, lá na cidade eu tinha visto uma vez uma luta do famoso boxeador Ahmed Hattah, e eu sabia o que fazer. O velho japonês descaradamente riu quando eu fiz isso, parti para o ataque, mas a única parte depois disso que eu posso me lembrar, é que ele me acertou na cabeça com um grande pedaço de pau. Depois, eu me lembro de escuridão, cortada com flashs, eu olhando para cima, o velho me tacando fumaça e folhas, falando comigo, cantando, várias vezes me chamando de Baka, provavelmente um elogio reconhecendo a minha bravura. Quando voltei a consciência, me encontrei em um estranho lugar. Parecia a floresta, mas as árvores se balançavam como a água caindo da torneira, e a neve que cobria o chão estava completamente pintada de vermelho. Uma neblina tapava a distância. Comecei a andar por aquele estranho lugar, tentando encontrar uma saída para a floresta onde estava, quando uma coruja apareceu à minha frente e ficou a me olhar profundamente. Depois saiu voando para o meio da neblina, corri atrás dela. E ela acabou entrando em uma estranha cabana que parecia um funil ao contrário coberto de couro. Segui-a lá dentro, e no meio do lugar, vi minha avó em uma cadeira de balanço, ao lado de uma fogueira. A coruja parou em seus pés, e pegando uma caixa de graxa, começou a engraxar as suas botas. Minha avó estava lá, sentada, olhando para mim, com seus olhos vermelhos de beber chá, tricotando um chapéu com a pele arrancada de seus braços. Falei-lhe: “Mamãe Margot Escarlate, onde estou? O que está acontecendo?”; Mamãe Margot Escarlate era como minha avó gostava de ser chamada, não me pergunte o porquê. Ela nada me respondeu, só olhou para o lado, acompanhei-a e vi no canto da cabana um pequeno armário cheio de gavetas. De uma delas saiu um esquilo com um tapa olho no olho esquerdo carregando um grande relógio, quase do mesmo tamanho que ele. Ele parou nos olhando com o relógio ao seu lado e deu-lhe corda. Os ponteiros do relógio começaram a girar bem rápido, sem parar. Não entendi absolutamente nada, e olhei para vovó. Ela me olhou e disse: “Quantos dias se passaram?”. Respondi-lhe: “Não sei, não prestei atenção!”. E ela continuou: “Tolo! Você é um tolo, jovem Baka! O tempo corre e nada vês, o tempo passa e nada faz, o tempo é e nada és! Só aquele que trilha seu próprio caminho pode chegar até o final. Só aquele que voa como o esquilo pode comer a noz. E a noz é redonda! É redonda! Jovem Baka só poderá seguir pelo seu caminho quando entender que a noz é redonda! Nenhum baka sem chapéu pode entender que a noz é redonda! E você só terá seu chapéu, quando um jovem baka não mais ser!” E eu, ainda sem entender nada, só lhe disse: “Hum… o quê?”. E ela continuou: “Tolo! Tolo, Jovem Baka! Agora vá! Mas lembre-se, tome cuidado com o norueguês!”. Eu ainda não entendi nada e disse: “O quê?”. Mas minha avó nada mais respondeu e deixou de me olhar. Fiquei lá parado, sem fazer o que fazer, quando da escuridão da cabana apareceu o destemido David Cohen, ele sorriu para mim, e depois levantando uma espada de kendo, decepou a cabeça de minha avó. Imediatamente o esquilo que estava no canto, largou o relógio e atacando David Cohen, se dependurou em sua face. A cabeça decepada de minha avó caiu na fogueira, fazendo as labaredas subirem e começarem a queimar a cabana. A coruja que estava engraxando as botas de minha avó, com o espalhar do fogo, agarrou a sua caixa de graxa e saiu voando para a entrada, no caminho me acertou na cabeça com a caixa. Cai, inconsciente.

Ao acordar estava no meio da floresta, onde havia encontrado o velho japonês. Mais uma vez sozinho, peguei as frutas e insetos que já havia recolhido e rumei de volta para a carroça. Chegando lá, logo notei algo estranho, Lola não mais se encontrava. Papai disse que Lola tinha se soltado da carroça e fugido. Foi um grande desapontamento, Lola era o meu cavalo favorito, meu espírito de cowboy foi de certa forma arranhado com sua traição. Como poderia ele ter feito isso conosco, mesmo estando tão fraco, como Lola poderia ter se livrado de suas fortes amarras e simplesmente nos deixado para morrer aqui. Pelo menos, em compensação, neste mesmo dia, papai, que havia ido procurar comida em outra direção, matou um urso, nos dando carne para uma semana. Quando voltei, já tinham arrancado toda a carne do animal, então não tive oportunidade de realmente ver o corpo e como papai destemidamente tinha lhe matado. Mesmo assim, soube de tudo em detalhes, pois papai em todas as refeições por uma semana não parava de se gabar de como havia enfrentado o urso. E era bem interessante, especialmente porque a cada dia ele lembrava de tudo de uma forma totalmente diferente. Porém, logo as coisas pioraram de novo, Hanz, como Lola, se provou também um traidor, fugindo do mesmo jeito, coincidentemente, no mesmo dia que papai matou outro urso. Abandonamos a carroça e continuamos andando com as nossas coisas nas costas. Toda hora imaginava se encontraríamos Lola e Hanz pelo caminho, imaginava como reagiria com eles, se os perdoaria por terem fugido.

Tudo mudou numa noite. Papai me acordou, uma luz vinha distante entre as árvores. Gritamos por socorro, não importava quem fosse ou o que fosse, no nosso estado isso não mais fazia diferença. E logo, aquela luz se revelou uma tocha, carregada pela mão de um homem, sentado sobre seu cavalo, usando uma roupa preta, com um chapéu também preto, e um tapa olho sobre o olho esquerdo, e ele, como eventualmente descobriria, era um homem chamado Jack.

Continua!

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