Maio, 2008
(conto escrito para o concurso do O Globo, Contos do Rio, tema carnaval)

Dançar o carnaval, brincar de carnaval, pular carnaval, o período para se livrar de suas inibições… é… ah… quem sabe… não! É preciso primeiro ter inibições para delas se libertar. Dificilmente algo diferente do que faço toda semana, não? É… tem mais dias. É… tem mais pessoas, mais tipos distintos, mais tipos indistintos, mais variedade em um só lugar. Coelhas, fadas, diabas, anjas, escocesas, professoras de bioquímica…
Desloco-me para lapa. Ando nas ruas cheias, entro em festas, conheço pessoas, estendo meu copo vazio para ser preenchido por garrafas alheias. Arcos brancos, luzes amarelas, grama verde. Brinco, claro, brinco com belas garotas. Olho, olha. Falo palavras soltas, sorri. Agarro-na pela cintura, beija-me. Nada novo, nada que o mesmo não seja, só que por mais dias seguidos. Sim, cinco. Bem produtivo, bem prazeroso, bem colorido. Já tentei algo diferente, não? Sim, segui blocos, o mesmo que muitos fazem. Segui uma bola preta a correr num rio branco. Massa de gente, calor suor, marcha. Encontro amigos, perco amigos. Uma onda corre para um lado, uma onda corre para o outro. Assumo parte de uma massa orgânica a deslizar num mar de suor composto de corpos, a seguir uma música, uma batida indistinta, uma batida de coração de mãe a ecoar nas mais distantes memórias. Algo novo por trinta minutos, algo novo por uma hora, algo velho logo depois. Tédio, nada mais a massa orgânica tem a me dizer. O rio seca, só sobra um bola batendo de um lado para o outro. Mas tento, persisto, ou sou obrigado a tentar e persistir, pois encontro uma beleza a quem aquilo parece ainda algo dizer. Lábios grandes rosados, purpurina sob olhos verdes. E a bola vai para um lado, e ela a segue, e eu sigo a seu lado. E a bola vai para o outro, e ela a segue, e eu sigo a seu lado. Rua eternamente igual, eternamente a mesma. Música eternamente igual, eternamente a mesma. Som de poucas frases, de pouca inspiração, escrito por aqueles que já foram, e logo nada foram com o que escreveram. Não posso me embriagar, pois preciso estar sóbrio. E estando sóbrio, cansa, mas vale a pena, pois em vez de acabar depois alegremente num canto sombrio a analisar meu tédio, acabo em um quarto vermelho, a degustar a garota que me fez seguir aquela bola de pingue-pongue. Rato de laboratório por um dia, a testar a sua resistência de fazer o mesmo sem parar, correndo de uma lado para o outro em um corredor, para no fim ganhar o queijo.
Batida, corpos, bebida, múltiplas fantasias. Há aqueles que estão sempre lá, mas não sabem o que querem. Vão, por ir, por ser o que todos fazem, por não terem alternativa, e por quererem a ter fora do que geralmente fazem. Culpado, talvez se encontre aquele que narra. Há aqueles que vão como turistas nas ruas as quais passam todos os dias. Turistas por suas ruas, agora exóticas. Vão para a repressão da apreensão, para rir embaraçadamente no primeiro momento que lhes é sugerido algo verdadeiro sutilmente no ouvido. E há também aqueles que realmente tem um grupo de inibições. Inibições que assumem orgulhosamente, para então desinibi-las. Vai o papai, vai a mamãe, vai o vovô, vai a titia. Todos finalmente a realizar seus desejos reprimidos de por alguns dias do ano beber numa rua movimentada, em vez de num bar parado, e andar de um lado para o outro, apertados entre si ao som de música ruim. Um sonho encantado. Provavelmente, na Uruguaiana nunca foram. Pelo menos, não para cantar, só para comprar. Pelo menos, cantam. Cantam para comprar a desinibição da apreensão pela inibição. Todo ano estão lá, e todo o ano fazem do mesmo, o novo. O novo mesmo! Pego carona com o papai bêbado de uma das beldades que conheci. Papai bêbado dançando no carro do Centro a Tijuca, e clamando para o mundo que está sóbrio. Danço o samba rodoviário.
Presente, pois era passado. Presente sem bloco, só arco. Primeiro chegue lá, por favor! Sim, sim, terrível transito até lá. Trinta minutos parado do lado do sambódromo, observando a procissão. Sambódromo, made in Brazil, para not made in Brasil. Lugar que nunca vou entrar, pelo menos durante o carnaval. Não sei sentar, nem assistir. Não faço em casa, imagine pessoalmente. Não sei também vestir uniforme e seguir marcha. Claro, entendo o conceito de pular a batidas, mas não faço esse tipo de coisas num quartel. Não sou um soldado de poucas roupas, nem gosto de treinar um ano para isso.
Enfim, lapa! Saio a procurar meus amigos: anarquistas; homossexuais; roqueiros heavy-metal; o que aparecer primeiro. Encontro irlandeses e uma garrafa de vinho. E andando mais um pouco, encontro uma coelha loira de olhos azuis. Esqueça Alemanha, esqueça os escandinavos, eu amo o Rio Grande do Sul! Mais vinho, com os anarquistas. Algum whisky com os homossexuais. Os roqueiros já estão inconscientes. Chove! Corro entre gotas d’água que brilham no ar entre os poucos que se atrevem a fazer o mesmo. Medo de derreter? Minha coelha gaúcha fica no seco, com sua amiga abelha recém surgida. O sul também produz mel. Mel nada doce, a reclamar de tudo. Irritante. De onde sai esse tipo de gente? A abelha é mesmo uma abelha, e nada se compara com a minha coelha, mas é tão irritante, insuportável, desagradável. Fico excitado. Quero está, quero aquela, perco todas, acabo no Espírito Santo.
Lapa vai, Lapa vem, os dias passam, faço o mesmo, faço igual, mas faço por mim, a partir de mim, será? Já notaram como a população de mendigos quadruplica na lapa nas semanas após o carnaval? E também de turistas.