Capítulo I - Sangue...
2003

-Sangue...
Sangue é tudo que vê em suas mãos a terrível criatura, que vive em uma caverna sombria, e é conhecida pelo povo de um vilarejo próximo como a “Terrível Criatura que vive na Caverna Sombria”. Mas que, entretanto, não tem nome, por ser completamente inominável, apesar de, na verdade, realmente gostar de se auto-intitular “Loid”. E que, assim, será nomeada neste relato de sua vida, que na sua publicação - se esta já não ocorreu, ou melhor, se esta algum dia realmente chegar a ocorrer - será - ou é, ou nunca será - chamado “O Relato da Vida da Terrível Criatura, que vive na Caverna Sombria, chamada Loid”.
Voltemos então a esse tão importante relato. Então, quem é Loid? Como ele é? Por que é tão temido pelo povo do vilarejo próximo? Creio que não havia mencionado anteriormente o temor do povo do vilarejo próximo, mas isso não é importante agora. Essas são perguntas a serem respondidas em um futuro possivelmente próximo, ou talvez nunca, ou talvez já foram respondidas e você leitor simplesmente as esqueceu. Mas, o que é importante agora, é o sangue que se encontra nas mãos de nosso querido Loid. Por que querido? Você terá essa resposta lendo esse relato, ou talvez não! Talvez você aprenda a chamá-lo de o terrível Loid. Quem pode realmente dizer que tipo de julgamento tirará desse fatídico, talvez alegre, talvez tedioso relato? Certamente, não eu. Provavelmente, nem um pouco você.
Vejo que já demorei demais a iniciar essa história, então voltemos ao ponto de partida. Onde está nosso querido Loid? Em sua caverna sombria, a qual não é dono, já que a Loid nada pertence e nada pode pertencer. Loid vê suas mãos, ou patas, ou garras, ou ganchos, ou asas, ou nadadeiras, ou simultaneamente todas, ou constantemente nenhuma, cobertas de sangue, o qual é proveniente de sua pele, a qual é igual a de um mamífero, ou ave, ou réptil, ou inseto, ou peixe, ou constantemente todas, ou simultaneamente nenhuma. Loid murmura uma única palavra na imensidão da caverna sombria e a escuta ser repetida:
-Sangue... Sangue... Sangue...
Loid sabe porque está sangrando, pois nadou no rio de vidros que desemboca no centro da caverna sombria, esta que já não é tão sombria assim, já que este estranho rio reflete a luz do sol sobre as suas paredes. Sol que não vem do exterior da caverna. Pois há muito o sol não paira sobre aquela terra desolada, onde há um inverno constante que pode ser visto até onde a visão de um cego consegue alcançar. A luz que é refletida pela chamada caverna sombria através do rio de vidros, não vem de sua superfície, mas sim de sua nascente, que se encontra muito além em um lugar totalmente conhecido, porém provavelmente desconhecido. Essa luz vem refletida pelos milhares, eternos, pedaços de vidro que correm por esse rio. Pedaços que escondem, cada um, diferentes eternos infinitos. Assim, todas as manhãs daquela terra sem sol, Loid mergulha nesse rio e nada. Nada por tudo que foi, tudo que é e tudo que será; por todo o imaginado, por todo o não imaginado, por todo a ser imaginado. Tem, então, milhares de afiados pedaços de vidro, que escondem o reflexo de universos, perfurando sua pele. Cortando-a, enquanto perdida, deslizando entre essas finas pontas esta se encontra, enquanto todas a encontram em retorno. Logo, após o tempo se esgotar no infinito e reiniciar em uma explosão, Loid volta a sua caverna, que não pertence a ele, ou a mais ninguém, mas que ele gosta de clamar para si. Ao sair deste rio todas as manhãs, Loid pára, esfrega suas mãos em sua face, já que tem ambas e nada pode negar sua existência. Vê com seus olhos, que também tem, e só sua quantidade e forma podem ser questionadas, suas mãos com o vermelho do sangue, já que Loid não só tem olhos, como também pode identificar cores. O sangue o cobre completamente e o intenso escarlate vibra com tudo que é, não podendo realmente ser.
Essa é a principal rotina de Loid todas as manhãs da terra onde não há sol e onde um inverno constante reina. Uma rotina que não é rotina, pelo menos não para Loid, que não tem boa memória, ou talvez tenha uma ótima memória, só que não consegue se lembrar do que fez no passado, que é anterior a seu mergulho no rio de vidro, o qual dura uma infinidade de tempo.
Loid sente dor ao ver o sangue, o que é interessante, já que Loid não tem sangue, ou a capacidade de se machucar. Talvez Loid só goste de pensar que tem sangue e que pode se machucar. Mas isso é um mistério, já que a mente de Loid é um mistério, que não pode ser analisado, só seus atos, os quais não tem. Então, também pode se pensar que Loid não saiba que não tem sangue e que, assim, não pode se machucar. Talvez alguém haja lhe contado uma mentira, a qual Loid acreditou. Logo, talvez, suas mãos, face e olhos também sejam uma mentira e possam sim ser questionadas. Porém, elas sempre existiram, ou talvez não.
Loid não limpa o sangue, que acaba secando em sua pele, que talvez não exista. Assim, fica completamente vermelho para todos os cegos que queiram vê-lo, já que sem vida o vibrante escarlate não mais é. Estando ajoelhado, com pernas, que não devem ter sua existência questionada, mas que talvez não existam, na margem do rio de vidro, ele se levanta e caminha para uma das muitas saídas da caverna sombria. Já que Loid, além de ter pernas, tem a capacidade de andar, ou pelo menos acredita ter.
A caverna sombria é bem extensa e leva a muitos lugares, talvez reais, talvez irreais, talvez só imaginados por Loid. Quem sabe, talvez não vá a lugar nenhum, talvez a caverna sombria seja realmente pequena e sem saídas. Vamos supor por enquanto que a única saída real é a que leva ao caminho do vilarejo próximo, este que talvez só seja imaginado. Supondo isso, vamos acompanhar Loid, enquanto ele caminha para uma das muitas saídas da caverna sombria que não é a saída para o vilarejo próximo, já que esta talvez seja a única saída real, que talvez não exista. Ele contorna o rio de vidro e vê seu caminho impedido por uma pequena pedra quadrada, talvez retangular, talvez trapezóide, definitivamente com muitos lados, definitivamente não esférica. Pedra que antecede um gigantesco penhasco, ou talvez um firme plano rochoso. Loid pára em dúvida sobre seguir ou não. E, assim decide não seguir. Mas por obra da sorte, a qual Loid tem pouca e o leitor obviamente muita, já que se não a tivesse a história acabaria agora, Loid é impelido a seguir por uma estranha e nova sensação de temor. Segue, dá um passo à frente, ultrapassa aquela pequena pedra e, então, cai, cai uma imensidão, para o firme plano rochoso a sua frente, um degrau a cima. Nessa nova, extremamente velha, parte da caverna sombria, ele se depara com as muitas saídas talvez reais, talvez irreais, talvez imaginadas, dessa mesma caverna sombria. Todas para muitos, talvez poucos, lugares distantes, ali perto. Saídas que talvez sejam as estradas de outras saídas distantes, provavelmente também ali perto.
Loid sente o temor que o impulsionou a seguir aumentar. Sabe que um grande mal se aproxima, um que apesar de sempre todas as manhãs o impulsionar para frente, não pode se lembrar, já que faz tanto tempo que se deparou com ele, num distante dia atrás, antes do mergulho no rio de vidros. Loid, então, segue por uma das muitas saídas da caverna sombria, uma logo à sua frente, bem distante, logo atrás de onde está, uma que apesar de Loid não se lembrar de nada, lhe parece a mais propícia, levando-o a uma nova caverna. Uma pequena caverna bem quente, com pedras emanando um constante calor escaldante, que emite uma intensa luz vermelha, queimando tudo que ali se encontra. Loid é coberto pelo vermelho, que queima todo o seu corpo, reavivando o sangue seco que o cobre. Ali, tudo ao seu redor se embaça, as paredes parecem pulsar constantemente, expandindo e retraindo um eterno vácuo. Loid espera ficar seguro nessa nova caverna contra o grande mal que continua a se aproximar, obviamente perseguindo-o.
Loid escuta os passos do grande mal que se aproxima, já que também tem, ou acredita ter, a capacidade de escutar. Tendo orelhas, ou pelo menos algum tipo de aparelho auditivo, ou talvez não os tenha e só imagine poder escutar, sem imaginar ter um aparelho auditivo. Assim, Loid escuta aqueles tão reais passos que se aproximam cada vez mais, chegando finalmente a caverna onde se esconde. As pedras quentes nada são para esse mal, não o queimam, já que este não acredita poder se queimar. Enfim, os olhos de Loid se deparam com o grande mal que tanto ele teme e apesar de não se lembrar, logo reconhece a pequena garota de cabelos dourados e olhos azuis, chamada Alice, que está à sua frente.
Alice olha para Loid e murmura:
-Coelho...